09 Do zero · Mercado tradicional · Estados Unidos

Os números do mês

Emprego, desemprego e PIB saem em datas marcadas, e todo mundo sabe quando. Por isso mexem no preço de tudo em segundos — e por isso vale conhecer as duas armadilhas que quase ninguém conhece.

Fêr UlianovAbertura · 13 s

A frase
A economia criou 145 mil vagas em janeiro, e dezembro foi revisado para baixo; o desemprego caiu a 4,1%, o PIB anualizado veio a 2,3% — e a bolsa subiu com a notícia ruim.

Embaçada de propósito. O fim dela parece um erro. É a aula 05 voltando.

O calendário

Números com hora marcada

Estes números não vazam nem surgem de surpresa: a data e o horário são publicados com um ano de antecedência, e o dado sai para todo mundo no mesmo segundo. É essa sincronia que faz o preço se mexer tão rápido — não o número em si, mas milhares de pessoas descobrindo a mesma coisa ao mesmo tempo.

Três chegam com mais peso que os outros, e são os desta aula.

Emprego

Uma vez por mês

Quantas vagas foram criadas, e qual a taxa de desemprego. Saem juntos, no mesmo relatório — e vêm de duas pesquisas diferentes.

PIB

Uma vez por trimestre

O tamanho da economia. Sai três vezes para o mesmo trimestre: uma estimativa inicial e duas revisões.

Inflação

Uma vez por mês

É o CPI da aula 06. Costuma ser o mais aguardado dos três, porque é o que mais influencia a decisão de juro.

O calendário é público, e é por isso que a expectativa existe. Como a aula 05 mostrou, o preço já contém o que o mercado espera — o que move é a diferença.
Armadilha 1

Duas pesquisas, dois números, e eles podem discordar

O número de vagas e a taxa de desemprego saem no mesmo dia, no mesmo documento, e o leitor supõe que são dois jeitos de dizer a mesma coisa. Não são. Vêm de duas pesquisas separadas: uma pergunta a empresas quantas pessoas estão na folha de pagamento; a outra pergunta a famílias quem está trabalhando e quem está procurando.

E aí entra a definição que muda tudo. Para ser contado como desempregado não basta não ter emprego: é preciso estar procurando — ter feito alguma coisa concreta nas últimas quatro semanas e estar disponível para trabalhar. Quem desistiu de procurar sai da conta inteira.

A consequência é contraintuitiva e acontece o tempo todo: o desemprego pode cair porque gente parou de procurar, e pode subir justamente porque gente voltou a procurar. Veja os três casos.

Antes Depois
Vagas criadas —
Força de trabalho
Desempregados
Taxa de desemprego

Os mesmos dez mil empregos criados produzem taxas de desemprego opostas, dependendo do que aconteceu com quem está procurando. Por isso a taxa sozinha diz pouco: é preciso olhar também quantas pessoas entraram ou saíram da fila. Números ilustrativos, redondos.
Armadilha 2

O PIB americano é anualizado

Quando a notícia diz que o PIB americano cresceu 2,3% no trimestre, ela não está dizendo que a economia cresceu 2,3% naqueles três meses. Está dizendo o que aconteceria no ano se aquele trimestre se repetisse quatro vezes. É a mesma conta do número mensal da aula 06, aplicada a trimestres.

É convenção oficial: os números trimestrais americanos são publicados em ritmo anual, salvo aviso. Boa parte dos outros países publica o número cru do trimestre — então o mesmo crescimento parece bem maior nos Estados Unidos, e comparar os dois sem converter é comparar coisas diferentes.

Crescimento no trimestre
Como sai na notícia (anualizado)
Arraste e veja a distância entre os dois. Um número pequeno no trimestre vira um número respeitável na manchete — sem que nada tenha crescido além do trimestre.
E as revisões

O PIB de um trimestre sai três vezes: uma estimativa inicial, feita com dados incompletos, e depois duas versões corrigidas. A manchete quase sempre é da primeira. A revisão sai semanas depois, muda o número, e raramente vira notícia — é por isso que o dado do mês anterior, na frase da capa, aparece “revisado para baixo” como um detalhe no meio da frase.

O paradoxo

Notícia boa, mercado caindo

Falta explicar o fim da frase. Emprego muito forte é boa notícia para quem procura trabalho — e pode ser má notícia para a bolsa, porque economia aquecida costuma significar juro alto por mais tempo. E juro alto, pela aula 05, encolhe hoje todo lucro futuro.

Vale ao contrário também, e é o que a frase da capa descreve: um número de emprego mais fraco que o esperado pode levantar a bolsa, porque aproxima o corte de juro. O mercado não está torcendo contra as pessoas — está precificando outra coisa. São duas perguntas diferentes sobre o mesmo dado.

A prova

Agora leia a frase

É a mesma do começo, sem o embaçado. Toque em cada parte destacada.

A economia criou em janeiro, e dezembro foi ; o a 4,1%, o veio a 2,3% — e a .
Comece por aqui

Cinco pedaços

Cada parte destacada esconde um conceito. Toque em uma delas.

Cinco toques e a frase acabou.

Você já sabe responder

Se entendeu isto, a aula cumpriu o que prometeu

  • Vagas e desemprego vêm de duas pesquisas diferentes e podem discordar.
  • Só é contado como desempregado quem está procurando — desistir tira da conta.
  • O PIB americano do trimestre é publicado em ritmo anual.
  • O primeiro número é estimativa; a revisão sai depois e quase não vira notícia.

Fêr UlianovFecho · 26 s

Material educativo. Os cenários de emprego e todos os números das figuras são ilustrativos e redondos, para a conta ficar visível — nenhum é dado publicado, e a frase da capa é uma anatomia, não uma notícia. O que é estrutural, como as definições das duas pesquisas e a convenção de anualização, vem de fonte oficial. Não é recomendação de compra ou venda.